O falacioso discurso da TV Digital: da interatividade

Interatividade. Substantivo feminino: ato ou faculdade de diálogo intercambiável entre o usuário de um sistema e a máquina, mediante um terminal equipado de tela de visualização. Etimologia: inter- + atividade. Teríamos algo como “ação no espaço”. Axiomático, não? O irônico é que a dita “qualidade do que é ativo”, da concepção do termo “atividade”, apresenta de imediato um contraste abismal com a essencialmente limitante linguagem televisiva e absolutamente passivo telespectador.

 

Como senso comum, a televisão é um meio de comunicação fundamentalmente passivo e massificado, em razão de fatores como, de maneira bastante genérica, da necessidade de impactar um grande número de espectadores para viabilização da produção dos programas – o que evidentemente requer um conteúdo e uma linguagem de fácil absorção à maioria – ao envio do sinal televisivo de um para muitos. Trata-se da própria definição do conceito de Broadcast, cuja principal característica é a de que a mesma informação é enviada para muitos receptores ao mesmo tempo, propriedade esta que nem mesmo a ascensão do sinal digital poderá por hora modificar.

 

Dedo na ferida

 

Inserida nesse contexto, a idéia de Interatividade é uma das mais glorificadas promessas que a TV Digital preconiza em sua tão logo estréia em território nacional. O discurso contempla dos recursos aos usuários de acessarem e trocarem informações na tela à potencial capacidade das empresas se relacionarem com os seus consumidores das mais diversas formas através do próprio aparelho de TV.

 

No maravilhoso mundo das inimagináveis infinitas possibilidades da TV Digital, o telespectador poderia comprar de imediato o deslumbrante echarpe da saudosa vilã Laura de Celebridades que fora utilizado até como arma no último capítulo da novela; poderia eliminar do Grande Irmão Global, a um simples toque do aparelho de televisão, a japa gostosa, o brutamontes brilhante ou o Alemão, o mais recente da lista das célebres pessoas que chegaram ao topo do afamado castelo de cartas televisivo devido às suas grandiosas realizações; poderia escolher o final do reclame da mais nova cerveja premium um pouco menos barata – e ainda altamente acessível às massas – dentre o desfecho no campo de futebol com morenas incríveis ou a conclusão do comercial na praia com as loiras gostosas, geladas ou quentes; poderia ainda participar se cadastrando diretamente na TV da revolucionária promoção da gigante Nestlé que uniu em uma só tacada dois grandes marcos dos nossos memoráveis domingos de conteúdo televisivo de qualidade: Gugu e Faustão, ah, sem falar na possibilidade de se votar no candidato de vossa preferência na dança, na dancinha, no gelo, no circo, em casa, na fazenda, dos famosos de nosso Domingão.

 

Okay, argumentos para todos os gostos, até para os mais discutíveis deles. Agora, será que está realmente em discussão o quão distante estamos destas inúmeras possibilidades? Comecemos respondendo tal indagação questionando-se com a obviedade: como é a tal interatividade televisiva nos países em que a TV Digital já existe há muito mais tempo, em alguns deles há mais de uma década? Resposta: Interatividade praticamente nula, considerando-se as potencialidades, restringindo-se ao acesso a serviços bancários, próximo ao que o Internet Banking já nos proporciona. No país, entretanto, contamos com uma relevante particularidade: somente 27,5 milhões de brasileiros têm internet em casa, enquanto mais de 90% têm acesso a TV aberta. A TV Digital terrestre é então vista por muitos como uma forma de se difundir produtos e serviços hoje acessíveis apenas aos “privilegiados” que possuem acesso à Internet. O pequeno grande empecilho, todavia, consiste-se no fato de que seja a Internet, seja o celular, seja a televisão, a condição sine qua non para a aclamada Interatividade é a existência de um puro e simples Canal de Retorno, o caminho contrário para o envio de informações do usuário para uma emissora de dados, áudio ou vídeo. No caso da Internet, o canal de retorno evoluiu da era dos modems analógicos – aqueles aparelhos que quando nos conectavam à rede faziam o mesmo barulho dos sinais de fax – para a era da banda larga. No que se refere aos celulares, o canal de retorno é a própria rede telefônica de cada operadora, sendo hoje a interatividade mais patente os SMS que votam, conversam e participam dos mais diversos programas de TV. E no caso da televisão, temos certamente uma grande incógnita.

 

Na TV Digital no Brasil, o sinal televisivo será enviado ao telespectador pelo ar em forma de ondas eletromagnéticas através das antenas de transmissão das emissoras, tal qual ocorre hoje com a TV aberta analógica, com a diferença de que o sinal será transmitido digitalizado. Este sinal será recebido por uma antena na residência do telespectador e será decodificado por um conversor – o set-top-box – para que o conteúdo do sinal digital seja transmitido no aparelho de TV. De maneira sucinta, eis uma descrição simplória da transmissão de dados da emissora ao telespectador. Para que a Interatividade ocorra, se faz necessário que o contrário se suceda, em outras palavras, que a emissora também receba informações enviados pelo telespectador. Para que este envio de informação do espectador para a emissora se estabeleça, é premissa básica a existência de um aparelho – que poderia ser o próprio set-top-box – que decodifique o input – ou pedido – do telespectador e um meio físico para o envio destes dados.

 

Então, responda rápido: onde é que estão as principais barreiras para a expansão da TV Digital no Brasil? Dois principais pontos, além dos outros diversos já levantados neste blog: o conversor e o meio físico. Há menos de 3 semanas de sua estréia, o Brasil ainda não determinou regras e parâmetros definindo minimamente os requisitos de um set-top-box para o padrão nacional, embora seja muito provável que o box mais acessível não conte com recursos interativos, uma vez que tal atributo factualmente eleva os custos do aparelho. Considerando-se a impressionante estimativa dos 50 a 70 milhões de aparelhos de TV existentes no Brasil – cuja absoluta maioria pertencem a residências de baixa renda – fica clara a dificuldade de se comercializar um bem longe de ser primordial como um conversor, tanto mais um conversor com recursos adicionais incorporados, o que consequentemente elevará o seu custo de aquisição.

 

Dado que nenhuma residência irá dispor de uma Mega-Antena que possibilite o re-envio das informações às emissoras, as formas do envio de dados dos telespectadores demonstram-se altamente restritivas as populações (bem) menos favorecidas. ISDN/DSL, ADSL, Modem a cabo, Wireless/Rádio, Satélite, WiMAX, ou qualquer outra forma possível como solução inclui a instalação do meio físico como o próprio cabo, a aquisição de um aparelho como o modem ou alguma espécie de decoder e as proibitivas assinaturas brasileiras deste tipo de serviço. Só como uma simples – porém altamente esclarecedora (e assustadora) – ilustração, em recente pesquisa realizada pela TelComp, a Banda larga no Brasil foi mensurada como quase inacreditáveis 400 vezes mais cara que em outros países, tendo-se como base os preços da Telefônica, NET, Brasil Telecom e Oi em diferentes capitais. No Japão, o Megabit por segundo sai pelo equivalente a R$ 1,81. No Brasil, o mesmo Megabit por segundo chega a custar impressionantes R$ 716,50.

 

Anote então mais essa para a interminável lista de itens que desconstroem o patético discurso proferido pela grande mídia, pela indústria e pelo governo dos benefícios fabulosos advindos da digitalização do sinal televisivo. Interatividade será um bem da TV Digital para muito poucos. Um bem de poucos para a oneração de absolutamente todos que desejarem assistir a televisão depois de junho de 2016, data limite em que será desligado o sistema analógico. Ou seja, todos terão que adquirir um conversor – ou um aparelho de TV com conversor embutido – nos próximos 10 anos. Mesmo um indivíduo miserável, muitos deles possuidores atualmente de aparelhos de TV – cuja quase que única forma de se receber notícias externas acerca do mundo que o cerca é através do aparelho – também terá que desembolsar a quantia correspondente ao set-top-box se quiser continuar recebendo sinal televisivo em seu modesto televisor. O benefício que esta compra trará a este indivíduo é completamente questionável, não só devido a esta questão da ausência da Interatividade, como os já abordados outros “benefícios” da TV Digital, da qualidade da imagem (ver post anterior) à ilimitabilidade do conteúdo (ver post anterior). Um investimento sem nenhum retorno tangível ou palpável para as massas, para que os meia dúzia que hoje adquirem um televisor cujo valor compraria uma considerável residência desfrutem do mundo das fantásticas experiências digitais televisivas interativas e ilimitadas. Os mais otimistas diriam: ainda assim, melhor do que um relógio. Ou talvez, para os ainda mais positivos, seja uma mera questão de ordem semântica: transformar o telespectador, aquele que apenas contempla e observa, no telerealizador que efetivamente atua e age. Haja saco. Aja, saco!

4 Comentários

Arquivado em Conteúdo, Conversor, Globo, Grande Mídia, História do Brasil, Indústria, interatividade, Internet, Manipulação, Publicidade, Telecomunicações, Televisão, TV Aberta, TV Digital, TV Paga, Via prussiana

4 Respostas para “O falacioso discurso da TV Digital: da interatividade

  1. Caríssimo responsável

    acabo d postar um txt sobre a tv digital e este site foi fundamental p/ isso. Coloquei um link lah. Se quiser conferir ele eh entitulado “Imagem lírica e tapa na cara” e estah no meu blog; cujo endereço eh http://mgabrielagalvao.blogspot.com

    Vlw e abraço!

  2. Pingback: TV Digital estréia no Brasil em 02 de Dezembro — CyberTV

  3. Pingback: Programa TV 2.0: A TV debate a TV (no bate-rebate do não-acontecimento, um acontecimento que merece destaque) « TV Digital no Brasil

  4. Raoni

    Um possível canal de retorno, hoje já onipresente no Brasil, é o celular digital, GSM. Para isso bastaria o set-top-box suportar esta interface. O usuário teria de comprar um chip de R$ 5 e pagar uma conta de dados. Como o volume de dados é mínimo, o valor seria ínfimo.

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