A pequena história da Grande Mídia brasileira (Uma anedota de quem efetivamente manda na TV Digital)

Impossível refletir acerca da digitalização do sinal televisivo no país sem se referir a esse seletíssimo grupo dos principais veículos de comunicação que se contrapõem à denominada imprensa (definitivamente) nanica – ou como se posiciona este singelo blog, a quase underground mídia alternativa – popularmente conhecida – ou academicamente, pejorativamente ou de maneira ativista – como a tristemente afamada Grande Mídia brasileira, justamente, entidade a qual pertence os próprios detentores do controle do leme deste verdadeiro transatlântico chamado TV Digital no Brasil. E, embora o fenômeno de concentração da mídia nacional siga tendências factualmente mundiais, em nossas terras – como não poderia deixar de ser – temos ainda outros agravantes além da lei, que como observado, é evidentemente favorável aos grandes grupos de comunicação (ver post anterior). 

O elevado grau de analfabetismo ainda presente – seqüela não só das precárias condições do ensino fundamental, como resultado também do reduzido poder aquisitivo da maior parte da população – suprime a ampla maioria da sociedade brasileira de outras possíveis fontes de informação e conhecimento. Além disso, ainda é patente no país a fragilidade das organizações sociais e a quase que ausência de uma sociedade civil verdadeiramente estabelecida. Nesse calamitoso cenário, a esmagadora maioria dos brasileiros possui somente no agendamento dos temas estabelecidos pela grande mídia a sua primordial forma de se relacionar com questões de natureza social, política e econômica.

Missa Televisiva

Outro aspecto preocupante é a maneira instaurada como esses assuntos de interesse público são colocados em debate sob a perspectiva de interesses privados no Brasil, país de recorrente desemprego conjuntural e estrutural. Neste cenário em que os meios de comunicação estão sob a tutela e proveito de poucos, influenciando e estabelecendo visões de mundo perante muitos, o profissional da notícia – o jornalista – que a princípio deveria interar a sociedade dos fatos para que ela possa, munida de informações, decidir de maneira particular e autônoma quais as medidas e decisões a serem tomadas, muitas vezes passa por um processo de cooptação e de integração à conjuntura da cobertura jornalística estabelecida. Salvo relevantes exceções, a grande massa dos profissionais de jornalismo, em especial no televisivo, abdica de abordar os fatos visando aos interesses da sociedade, tornando-se um mero componente de um sistema que objetiva, ainda que sob a máscara da imparcialidade – pressupondo a exposição de uma apenas aparente “verdade absoluta” – atender aos propósitos e causas de uma minoria privilegiada. O jornalista Bernardo Kucinski ilustra essa lamentável conjuntura na mídia impressa nacional – cuja uma das ferramentas de aliciamento está no irredutível mercado de trabalho:

“As hierarquias nas redações são dividida horizontalmente: editores e subeditores leais aos proprietários comandam, para assegurar que a cobertura não viole nem os interesses estratégicos da empresa nem as idiossincrasias e favoritismos da família proprietária. O jornalista comum, num mercado saturado por mais de 150 escolas de jornalismo, é arbitrariamente demitido a qualquer incidente menor e não tem direitos estatutários à livre opinião e nem garantia de emprego. Atinge a taxa anômala de 30% ao ano a rotatividade nas redações, fazendo das demissões um instrumento rotineiro de intimidação ou controle social. A assinatura de matérias passa a ser um direito conquistado, mediante demonstrações de lealdade à casa e confiabilidade, com profundas implicações no éthos do jornalista. Sua personalidade pública só se constrói tardiamente, e não em todos os casos; ficam prejudicadas suas relações com as fontes, com o processo de aquisição de conhecimento e sua responsabilidade pelo texto final, sobre o qual não tem controle. Ao invés de um perfil público cada vez mais robusto, instala-se freqüentemente entre os jovens jornalistas um processo de alienação crescente e desligamento em relação ao texto final. (…) Muitos jornalistas têm um segundo emprego no aparelho de Estado, o que leva à promiscuidade e à perda da demarcação ética (…) No Distrito Federal, um terço dos jornalistas trabalham, simultaneamente ao trabalho de jornalista para veículos, em instituições do Estado (…) Em São Paulo, um terço dos filiados ao Sindicato dos Jornalistas dedicam-se de fato à assessoria de grandes empresas, agências de governo e Bancos (…) As gerações mais velhas de jornalistas, moldadas pela ética do jornalismo liberal, que prevaleceu durante os primeiros 20 anos do pós-guerra, foram em boa parte expurgadas das redações, especialmente a partir da última greve dos jornalistas, em 1979.” 

Temos assim a ampla base da pirâmide social brasileira cuja quase que única alternativa de se formar e informar é através das representações de mundo reproduzidas pelos meios de comunicação, controlados por uma elite que detém o poder e utiliza a sua mão-de-obra abundante, se não a seu serviço, no mínimo de maneira não conflitante aos seus próprios interesses. O resultado disso é o imaginário coletivo brasileiro sob o domínio instituído de uma poderosa e influente oligarquia familiar. Segundo dados do extenso e aprofundado Relatório Cartografia Audiovisual Brasileira, de 2005, produzido pela Fundação Padre Urbano Thiesen – cujo conteúdo traduz uma pesquisa efetuada a convite do Ministério das Comunicações e do CPqD – no setor de rádio e TV no Brasil encontra-se em âmbito nacional a família Marinho (Globo), a família Saad (Bandeirantes) e a família Abravanel (SBT). No âmbito regional, obtêm-se a Sirotsky (RBS), a Daou (Amazonas), a Jereissati (Nordeste-Verdes Mares), a Sarney (Maranhão), a Zahran (Mato Grosso) e a Câmara (Anhanguera Centro Oeste). Já na mídia impressa conta-se no Brasil com a família Civita (Abril), a Mesquita (OESP), a Frias (Grupo Folha SP), a Martinez (CNT-PR) e a Levy (Gazeta Mercantil-SP).

O relatório ainda cita a mudança de 2002 na legislação, que permitiu a emergência de empresas pertencentes a grupos religiosos, o que possibilitou a ascenção da Rede Record com 79 emissoras de TV, estabelecendo-se como a maior rede religiosa do País (Igreja Evangélica e Assembléia de Deus), com até então o terceiro maior faturamento (R$ 700 milhões), tendo 18 concessões de rádio e TV, a mesma quantidade do Grupo Saad (Bandeirantes), este concentrado na região Nordeste do país. A TV Cultura, de São Paulo (orçamento de R$ 125 milhões), se caracteriza como a única rede estadual de caráter nacional. Já o SBT (família Abravanel) – que recentemente perdeu a vice-liderança de audiência televisiva para o Grupo Record – possui cinco concessões, todas apenas de TV, sendo fortemente concentrado na Região Norte e detendo 21% da audiência. Mesmo com a inegável quantidade de leis absolutamente favoráveis às emissoras, o relatório destaca que tanto o SBT (11 emissoras próprias) como a Rede Globo (20 emissoras próprias) ultrapassam o limite legal de dez emissoras próprias (D.L. 236 – art.12).

Na Cartografia Audiovisual Brasileira, a Globo é descrita como um império midiático à parte. Concentrada na região Sudeste – a mais influente do país – a Globo possui, de longe, o maior faturamento dos grupos, com R$ 4,3 bilhões. A família Roberto Marinho é titular de 27 concessões de rádio e TV em 13 cidades, fazendo da Globo a quinta maior rede do mundo. No Brasil, o grupo é o único com todos os suportes de mídia e o primeiro absoluto em audiência. Dos oito principais grupos do setor de rádio e TV no País, apenas dois (Saad e Abravanel) não são sócios (afiliados) das Organizações Globo.

O relatório impressiona por demonstrar factualmente, através de ampla pesquisa realizada por órgãos renomados, que as banalizadas aspirações de democratizar a comunicação e de se reduzir o monopólio dos meios de comunicação, anseios estes vulgarizados – ou ao menos negligênciados – pela própria grande mídia, procedem em pertinência sob todos os aspectos e argumentos possíveis. Poucos relatos poderiam definir melhor a consciência e utilização desse domínio e dessa influência do que as próprias palavras do ex-líder do maior grupo de comunicação do Brasil, o ilustre falecido Roberto Marinho, em declaração sobre um dos mais polêmicos episódios da história das organizações Globo, sob um apelo supostamente cívico, na entrevista de 1987 cedida ao The New York Times:

“Em um determinado momento, me convenci de que o sr. Leonel Brizola era um mau governador. Ele transformou a cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro em uma cidade de mendigos e vendedores ambulantes. Passei a considerar o sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente usei todas as possibilidades para derrotá-lo na eleição.”

“Sim, eu uso esse poder (…) sempre de maneira patriótica, tentando corrigir as coisas, procurando caminhos para o País e seus Estados. Nós gostaríamos de ter poder suficiente para consertar tudo o que não funciona no Brasil”

Por fim, não somente os principais meios de comunicação encontram-se restritos sob o comando de oligarquias familiares que os utilizam visando o benefício próprio como que o governo – que em tese deveria defender os interesses da sociedade – muitas vezes, não apenas possui relações indiretas com o mídia, como inclusive, em inúmeros casos, principalmente no interior do país, os próprios líderes políticos é que são diretamente os proprietários dos meios de comunicação. Segundo reportagem da revista Veja, em matéria divulgada há já mais de uma década, 94 das 302 emissoras comerciais de televisão, assim como 1.169 das 2.908 emissoras de rádio presentes no Brasil eram de ex-políticos ou mesmos de políticos atuantes. Alem disso, 22% dos 594 parlamentares bem como exorbitantes 45% dos 27 governadores da época possuíam concessões de rádio, televisão ou mesmo um de acordo de ambas.

Considerando-se todos os prismas, ficam patentes os motivos que levam a um escancarado sectarismo das informações e a uma clara hegemonia da notícia, uma vez que o controle da maneira como os acontecimentos econômicos, sociais e políticos são expostos – quando não os são ignorados – estão sob o controle de uma elite, historicamente, de profundas afinidades com o poder político vigente, muitas vezes, conforme observado, quando não estão sob o comando efetivo dos próprios políticos, situação essa que parece desacreditar qualquer eventual imparcialidade e pluralidade tanto da percepção de mundo exterior incitada quanto das informações reproduzidas pela grande mídia. Agora, será que ainda se torna possível ser considerado de alguma maneira pertinente aquele discurso relegado a mera teoria da dita democratização da comunicação? Este blog persiste em acreditar que sim.

5 Comentários

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5 Respostas para “A pequena história da Grande Mídia brasileira (Uma anedota de quem efetivamente manda na TV Digital)

  1. Caro responsável, postei um txt no meu blog a respeito da célebre e infeliz fala do sr. Zottolo sobre o país e o Piauí, entre outras coisas. Eu lembrei q lah no Piauih eu vi pela primeira vz pessoas aglomeradas na rua em torno d uma relevisão q ficava n ajanela da casa d algum vizinho generoso (? ou tah ganhando um trouquinho…?). Eu ñ citei isso nesse txt e fiquei c/ isso na cabeça. Agora estou me informando a respeito da televisão digital do Brasil e assim encontrei este blog. Mt agradecida, aliás. Bom, o fato eh q o sr. Roberto Marinho poderia ter educado o Brasil! Depois da m. feita ela soh fedeu e fedeu mais ateh hj… Mas esse povo eh maravilhoso. Se este país funciona aos trancos e barrancos eh por conta do povo. Se ñ fosse por ele, ñ funcionaria. O txt q citei eh entitulado “Ahah! Uhuh! O Piauí eh nosso!”. T convido a conhecê-lo e ao blog -completamente despretencioso, d verdade-: http://mgabrielagalvao.blogspot.com . Falar nisso, tem tb o txt “Pau no Tio Sam” -em q falo do controle “Dele” sobre a internet bem brevemente- e um entitulado “Dah-lhe meu povo!”
    Eh isso (tudo huahuah).

    Abraço!

  2. Pingback: Contagem regressiva para o nada: às vésperas da estréia da TV Digital Brasileira « TV Digital no Brasil

  3. bom eu tenho 10 anos.
    eu to na quarta serie,eu entendi td letra por letra,amei achei muito interessante esse trabalho feis eu tira 10 na prova ameii…

  4. Fico pensando em como entrar nessa “mesa de poker”.

  5. pedro

    Engraçado isso não?? roberto marinho dizendo que usaria de todos seus meios para derrubar o Brizola, que era um politico que nao se curvava a ele.
    Eu me pergunto, se só porque ele nao gostava de Brizola e queria depor ele e tirar dele seu poder, como faria eu, ou qualquer um de voces, para depor Roberto Marinho do seu grande monopólio?? Eu credito a esse senhor ai a pobreza e a alienação(tambem dos ricos e da classe média!)de grande parte do povo brasileiro,claro que nao por completo, mais é grande responsável.

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