O falacioso discurso da TV Digital: da ilimitabilidade do conteúdo

No momento em que a transição da TV Analógica para a TV Digital finalmente efetivar-se, as possibilidades de envio de conteúdo constatavelmente se ampliarão. Tecnicamente falando, na mesma faixa de freqüência hoje empregada – de 6 MHz – poderiam ser muito em breve transmitidos até 4 canais simultâneos no mesmo espaço, ao invés do atual – somente 1 canal. Tal façanha só é possível em razão da digitalização da TV e da ascensão de uma tecnologia de compressão de dados que “empacota” e agrupa as informações de maneira mais eficiente.

 

Apenas relembrando, qualquer forma de vídeo que possamos assistir, seja ele digital ou analógico, do filme Tropa de Elite no cinema, passando pela clássico San-São na TV, ao vídeo “In The Jungle” no You Tube, é na realidade uma seqüência de sucessivas imagens que, por passarem rapidamente, são interpretadas pelo nosso cérebro como uma percepção contínua, nos dando assim uma sensação de movimento, através do conhecido fenômeno da persistência retiniana.

 

Sequência de Imagens


No que se refere ao atual sistema analógico vigente em nossa televisão aberta convencional, cada quadro que compõe estas sucessões de imagens precisam necessariamente serem enviados integralmente, independentemente se cada imagem individual utilizada é muito semelhante uma à outra, ou mesmo se há elementos equivalentes em termos de cor e forma.

 

Já no futuro sistema de televisão digital terrestre existe a possibilidade tecnológica de se economizar um significativo espaço utilizando-se de diferentes técnicas de compressão de vídeo.

 

BlockingEntre as mais comuns está o conhecido blocking. Como o próprio nome indica, pode ser entendido como a divisão da imagem em blocos de mesmo tamanho, repetindo-se desta forma essas unidades da imagem que sejam idênticas ou semelhantes. No exemplo das fotos à direita, na figura central, podemos perceber que diversos blocos, majoritariamente os tons de pele, poderiam ser repetidos a exaustão já que são extremamente semelhantes entre si.

 

Outra técnica de compressão de vídeo é a chamada compensação temporal de movimento. Tal técnica consiste em transmitir apenas determinadas áreas da tela que efetivamente tenham se modificado. Na imagem do salto ornamental, a maior fração da tela – grande parte do fundo e da piscina – permanece inalterada. Seria muito mais pertinente o envio somente das porções da tela que se alteraram, ou seja, apenas as áreas em que a atleta passou.

 

Compensação temporal de movimento

Em suma, utilizando-se dessas técnicas que a digitalização do vídeo nos proporciona, temos como resultado a economia de espaço em razão da compressão das imagens, nos permitindo que haja uma maior transmissão de informação através do meio físico. Com tal disponibilidade de espaço, as emissoras comerciais poderiam eventualmente enviar dados com várias finalidades, legendas diversas, áudio em diferentes línguas, ou mesmo a tão aclamada possibilidade de enviar uma série de canais distintos. Entretanto, com a justificativa de uma “melhor qualidade de som e imagem”, Globo, SBT, Record e companhia adotaram a opção de apenas transmitir em alta definição, o que seria um dos controversos motivos da escolha do padrão japonês de TV Digital (além da questão do envolvimento do setor de telecomunicações, tema de um próximo post). O que era um grandioso potencial da pluralidade, democratização e diversificação de conteúdo em decorrência de uma possibilidade técnica foi escancaradamente subjugado a uma mera melhoria da imagem e do som (lembrando que o real aproveitamento dessas melhorias pressupõe um equipamento de recepção à altura, ou seja, o gargalo será sempre o aparelho de TV e o sistema de som, conforme post anterior).

 

Além da questão do conteúdo conservar-se o mesmo – ainda que melhorado em termos de resolução – e da linguagem televisiva evidentemente também não sofrer nenhuma alteração ao menos no curto prazo, o que também permanece é o modelo de negócio das emissoras comerciais brasileiras. Hoje, o que em sua maioria viabiliza economicamente a existência das emissoras – com exceção talvez da Record e suas relações com a Universal de Macedo – é a venda do espaço publicitário às empresas anunciantes. Agora simplesmente imagine o que foi que as emissoras comerciais pensaram quando lhes notificaram da possibilidade técnica de transmitir mais outros 3 canais simultaneamente além do atual. Resultado esperado: pulverização das verbas publicitárias em decorrência da descentralização da audiência em diversos canais. Solução tomada: escolha do padrão japonês que privilegia a alta definição da imagem em detrimento do padrão europeu que prioriza a diversidade de canais.

 

“Okay”, poderíamos pensar em solidariedade às nossas célebres emissoras que da ditadura declarada à pseudo-democracia nos acompanham nas incoerências brasileiras de cada dia. “São empresas como quaisquer outras, empresas não são ONGs, empresas visam sempre o lucro. Estão lutando pela própria sobrevivência. Geram empregos. Trazem prosperidade ao país.” Nem percamos mais tempo discutindo esse recorrente ponto de vista clichê. Podemos não concordar, mas digamos que aceitemos já que emprega alguma dose mínima de nexo. Alguma.

 

Agora, o que dizer do governo? Não aquele o qual estamos mais do que fartos de saber do que pode haver de mais irresponsável e hipócrita num ser humano. Pensemos por um momento no que deveríamos esperar verdadeiramente de um governo. Um governo digno. Façamos este absoluto esforço mental por alguns momentos, contra tudo aquilo o qual estamos acostumados, calejados e posteriormente anestesiados, desde que nascemos, com o intuito de que possamos prosseguir. Existe agora a possibilidade técnica de se fazer uma real revolução televisiva inicialmente provendo a diversidade de canais e a pluralidade de conteúdo, o que colaboraria para a democratização da comunicação e certamente beneficiaria a sociedade em geral. Governo, o que você faria?

 

Agora voltemos à dura e concreta realidade a qual estamos vivendo nesse exato instante. E pense no exato oposto daquilo que deveria ter sido feito. Pronto. Foi isso o que o governo fez. Se depois desse penoso e ingrato exercício ainda houver uma sede por indignação, volte a este post ou espere o próximo.

 

Como revisão conceitual das técnicas de compressão digital, se o Brasil fosse um vídeo, a redundância do blocking seria quase que plena e a compensação temporal de movimento, quase que nula. Talvez a melhor analogia a fazer não fosse a de um vídeo, mas a de uma foto impressa que descolore no decorrer do tempo, cuja essência do objeto retratado permanece invariavelmente a mesma.

3 Comentários

Arquivado em Compressão, Conteúdo, História do Brasil, Manipulação, Mídia de Massa, Novas Mídias, Publicidade, Telecomunicações, Televisão, TV Aberta, TV Digital, Vídeo, You Tube

3 Respostas para “O falacioso discurso da TV Digital: da ilimitabilidade do conteúdo

  1. luizm

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