Para entender a TV Digital: Bibliografia 5

O Poder da TVPara uma real compreensão da amplitude e dos impactos desta atual transição da TV Analógica para a TV Digital, faz-se primeiro necessário, evidentemente, uma diligência acerca da extrema relevância deste meio de comunicação em nossa sociedade contemporânea. Em seu breve livro, O Poder da TV, o autodeclarado esquerdista e polêmico José Arbex Jr. revela alguns aspectos dessa investigação, decompondo os elementos que fazem da TV o meio de comunicação soberano de manipulação do imaginário coletivo – com enfoque especial para o contexto brasileiro – explicitando os processos de simulação imagéticos cujo espectador é convidado permanentemente a identificar a realidade como a sucessão de imagens que se é transmitida pela tela, transmitindo ao público um confortável acesso aparentemente direto e imediato com o suposto real.

 

Segundo Arbex, a dinâmica da imagem requer respostas rápidas de quem a ela está submetido, por meio de reações reflexas e imediatas, impedindo a possibilidade de reflexão, constituindo-se num mecanismo extremamente eficaz de se manter oculta a estrutura que está na base do recorte segundo a ótica de quem controla os meios e a tecnologia dessa produção. A velocidade torna-se, assim, componente fundamental desse processo que exige sucessivos e novos eventos para despejá-los num público já adaptado a este ritmo frenético em que o excesso de informação, paradoxalmente, tem como objetivo tranqüilizar e anestesiar o indivíduo imerso ao caos, conduzindo-os a um estado de desinformação, redundância e não registro das informações.

 

O livro coloca a genericamente televisão mundial, através do exemplo emblemático da rede americana de televisão CNN, como uma das expressões mais completas, sofisticadas e poderosas da pós-modernidade, naquilo que ela representa de excesso (de informação, velocidade, eficiência e simulação) e de falta (de sentido, profundidade, pensamento e materialidade). Nessa circunstância, pouco importa o conteúdo do que esta sendo transmitido sobre um determinado ponto do planeta a alguma determinada região de algum país. O grande objetivo de compartilhar informações entre diversas partes do globo é passar aos indivíduos a sensação de pertencimento ao mundo, mantendo o sentimento de comunicação com seus semelhantes, ainda que jamais os veja, ainda que permaneçam remotamente isolados em seus domicílios (ver Pangea Day, comentado em post anterior).

 

“Governos de colaboração de classes são a ante-sala do fascismo”

Dentro do contexto brasileiro, José Arbex, com um claro distanciamento, destaca o que poderíamos talvez chamar de “catarse televisiva”, ou a maneira como as preocupações fundamentais – os conflitos sociais, políticos e familiares provocados pela carência material e, em última instância, a própria sobrevivência da imensa maioria da população – são relegados ao segundo plano diante das questões elegidas como prioritárias pela televisão, das tramas das novelas às intermináveis análises das partidas de futebol. Dessa forma, os reais problemas das pessoas são tidos como meras desagradáveis lembranças, já que foram excluídos da programação televisiva, ao contrário da comunhão fantasiosa da telenovela, que cria o conhecimento compartilhado de um evento que, em maior ou menor grau, foi também vivenciado por outros. (Vale recapitular o livro A Cultura Digital de Rogério da Costa – analisado num post anterior – em que é relacionada a interatividade dos tão difundidos reality shows com esta evidente “cumplicidade virtual” que se estabelece entre a audiência de um mesmo programa).

 

O autor também explicita os processos que constroem um universo ilusório por meio da infiltração da TV no íntimo de seus telespectadores através de mecanismos que capturam suas fantasias assim como a ilusão de participação do público mediante uma suposta interação como, por exemplo, através das controversas pesquisas de opinião. Por fim, o livro decreta os problemas vividos na TV como artificiais, as soluções como simplórias e as alternativas, maniqueístas, dividindo constantemente o mundo entre “mocinhos” e “bandidos”, Estados “democráticos” e Estados “tirânicos” e elegendo arbitrariamente os envolvidos simplesmente como o “bem” ou o “mal”.

Deixe um comentário

Arquivado em Gramsci, Imagem, Jornalismo, Manipulação, Mídia de Massa, Novela, Pangea Day, Rogério da Costa, Televisão, TV Aberta, TV Digital

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s