O falacioso discurso da TV Digital: da qualidade da imagem

Há mais de 35 anos atrás, mais especificamente no dia 19 de fevereiro de 1972, eram transmitidas publicamente as primeiras imagens a cores da televisão no Brasil, onde cerca de 500 privilegiados televisores coloridos recebiam diretamente do Rio Grande do Sul as reluzentes imagens dos desfiles de carros alegóricos da tradicionalíssima Festa da Uva de Caxias do Sul. Mas foi apenas na Copa do Mundo de 74 que, diante do que passou a ser então o mais do que evidente benefício de destacar a seleção brasileira em seu amarelo-canário – antes relegado a algumas vezes dura distinção entre o simples preto e branco, passando por alguns tons de cinza – que a venda em grande escala dos aparelhos de TV em cores verdadeiramente deu-se início no país.

Muito tempo se passou até que uma revolução digna de assim ser chamada – passando talvez pelo advento do controle remoto, muito temido na época pela publicidade, embora efetivamente não tenha causado grande impacto – voltasse à tona na ininterrupta corrida tecnológica neste emblemático aparelho que hoje está inserido quase que na totalidade dos domicílios brasileiros. Sim, depois da revolução que as cores causaram nos antigos televisores preto e branco, o único marco que posteriormente merece destaque foi o início dos testes justamente para a Televisão Digital, em 1998. Depois, nos já anos 2000 chegaram os primeiros televisores de tela plana no mercado nacional, assim como os primeiros aparelhos de Plasma e LCD já em 2002.

Jesse Jane já pensa em fazer cirurgia plástica em razão da alta definição (em inglês)

E depois de todos esses anos em que a TV permaneceu fundamentalmente a mesma – não só considerando a sua essência tecnológica, embora também a sua linguagem (ver post anterior) – a digitalização deste meio veio a ser, sem dúvida alguma, uma mudança absolutamente significativa no sentido das possibilidades que agora estariam disponíveis: da diversidade de conteúdo, passando pela interatividade, à melhora na qualidade de som e imagem. Aliás, este último item – a pretensa melhora na qualidade da imagem – vem sendo nesta fase inicial indiscriminadamente propagada como o carro-chefe dos supostos indescritíveis benefícios do advento da TV Digital. Resta a pergunta: até que ponto a chamada HDTV (high-definition television) realmente beneficiará a população brasileira em geral? E a que custo?

De antemão, nem sabemos ao menos se todas as emissoras irão produzir e, mais importante ainda, enviar o sinal digital em maior resolução. É evidente que as emissoras comerciais mais representativas certamente terão transmissão em HDTV, embora o que não se tem discutido na véspera do início das transmissões digitais é o fato de que “possuir a capacidade” não é definitivamente o mesmo que “utilizar a capacidade” e fazê-la da maneira devida. De nada adianta poder enviar um conteúdo de maior qualidade se, em alguma das fases, a qualidade for de alguma forma desfavorecida. Por exemplo, uma das principais vantagens proferidas quando do lançamento da TV paga no país foi a de uma também melhor qualidade de imagem, promessa – depois de quase 20 anos de existência no Brasil – factualmente não cumprida. Antes de enviar o sinal televisivo para o receptor do cliente, em algum momento do processo, as operadoras de TV por assinatura utilizam uma compressão de vídeo pífia, o que resulta em uma qualidade de imagem muitas vezes inferior a obtida no sinal da própria TV aberta.

Além disso, uma das hipotéticas grandiosas vantagens inquestionáveis proclamadas aos quatro ventos – a recepção da imagem sem chuviscos ou interferências, ou seja, a suposta ausência dos chamados “fantasmas” – não está sendo divulgada de maneira integral sob o ponto de vista técnico. Okay, os “fantasmas” da maneira como os conhecemos hoje certamente não mais existirão. Entretanto, na eventualidade de problemas na transmissão e recepção do sinal televisivo, poderemos presenciar “monstros” em nossas telas muitas vezes até piores do que os hoje familiares “fantasmas”, ou até mesmo a completa não-recepção do sinal digital. Entre uma tela com chuviscos e a total ausência de imagem, eu certamente ficaria na companhia dos “fantasmas”. 

Vendas de Plasma e LCDPor fim, vale lembrar que o grande gargalo para o aproveitamento do potencial de qualidade do sinal digital será o aparelho televisor e os periféricos de cada indivíduo. A começar pelo famigerado set-top-box, nada mais que o conversor, este polêmico aparelho de transição do analógico para o digital que agora irá custar cerca de 3 vezes mais do que o inicialmente proferido pelo seríssimo ministro, Sr. Hélio Costa. Além do economicamente inacessível Surround Sound 5.1, com suas 6 caixas acústicas, realce dos graves, popularmente conhecido como som de Home Theater. E claro, não poderíamos nos esquecer dos célebres sonhos de consumos da atualidade – os aparelhos televisores de Plasma e LCD – que apesar do preço ainda nas alturas tiveram uma queda em valores verdadeiramente expressiva nos últimos anos (milagres de Mr. Ford, Eiji Toyoda e a economia de escala). Sem a substituição pelo Plasma ou pelo LCD, a esmagadora maioria dos televisores de tubo do país acompanhados dos burlescos conversores teriam uma qualidade de som e imagem não muito diferente, bem, da que encontramos atualmente mesmo. 

Agora me responda você o que há de democrático ou mesmo de revolucionário ao menos neste capítulo inicial da TV Digital, que apesar da tecnologia japonesa, está absolutamente abrasileirado em sua ainda breve história. Você já deve estar pensando em quem, dentro de toda esta grande revolução tecnológica, afinal, irá pagar a conta. E a campanha abaixo, criada pela Central Globo de Comunicação, ainda enfatiza o quão “de graça” será a Televisão Digital. Cenas de um próximo post.

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