Mais do mesmo e menos é mais: Pombos-correios e a revolução televisiva

Pombos-correios: mídia do passado? Talvez, embora nem tão passado assim. Somente há 6 anos, ou seja, uma atividade ainda pertencente a este século, finalmente fecharam-se as portas da última pequena empresa remanescente que persistentemente prestava serviços de pombos-correios no mundo, na longínqua e remota região indiana de Orissa. A chamada columbofilia – a arte da criação e adestramento de pombos – apesar de ainda permanecer como paixão e hobby de muitos, deixou de fazer parte da gama de inúmeras possibilidades midiáticas de comunicação terceirizadas disponíveis hoje no mundo contemporâneo. Em outras palavras, se for do interesse do indivíduo utilizar-se neste instante da mais arcaica forma de comunicação à distância do globo, terá ele que ter criado e adestrado o seu próprio poPombos-correios esmagadosmbo.

Nem mesmo em se tratando de um meio até então inegavelmente atrativo – visão de longo alcance, aguçado sentido de orientação, velocidade de até 100 km/h, capacidade de percorrer distâncias superiores a 1000 km, tudo isso a um singelo custo de apenas 1 quilo de alimento por mês – pode o pombo-correio deixar de sucumbir ao implacável avanço tecnológico dos meios de comunicação, em especial dos serviços de telemática, telecomunicações e da conexão global via Internet (O que dizer então da nossa atual hegemônica televisão?).

E se esses mesmos irreversíveis avanços que deixaram para trás na Índia uma prática de centenas de anos digna de retrato em pinturas da Dinastia Mogul – avanços que nos dão a possibilidade de hoje discutir a iminência do início da dita revolução digital brasileira no até então principal meio de comunicação vigente – progredissem ao ponto de nos levar a ascensão de uma TV Digital interconectada mundialmente? A priori – tirando-se evidentemente os apologéticos discursos da tecnologia, dos benesses do progresso científico e da promoção do consumismo generalizado – a triste conclusão é que fundamentalmente nada mudaria.

Nas palavras de Arlindo Machado, acerca da obra de videoarte – não exatamente nova (1987), embora absolutamente atual – Cross-cultural Television, de Antonio Muntadas em parceria com Hank Bull:

“Imagens provenientes de inúmeros países demonstram que, malgrado as variações locais ditadas por especificidades culturais ou linguísticas e por diferenças de suporte econômico, a televisão se constrói da mesma maneira, se endereça de forma semelhante ao espectador, fala sempre no mesmo tom de voz e utliliza o mesmo repertório de imagens sob qualquer regime político, sob qualquer modelo de tutela institucional, sob qualquer patamar de progresso cultural ou econômico. Trata-se, nesse vídeo, de tornar evidente o imperialismo do mesmo na tela pequena.”

Ou seja, a princípio não teríamos nada lá muito diferente do que já temos atualmente, ao menos em termos da essência da já tão debatida linguagem televisiva, aquela que se contrapõe radicalmente à contemplação, sem exigir do observador distanciamento ou reflexão alguma; aquela da imagem dinâmica de frações de segundo, cujo o convite é o da permanentemente dispersão ansiosa do zappear insaciável; aquela que nos deixa imergir naquele fluxo ininterrupto de informações, de abordagens superficiais e de considerações ainda mais levianas – cujas exceções dos documentários de TV paga e dos jornais de tarde da noite que passam fora do alcance de quem já está dormindo para pegar a condução logo cedo no dia seguinte só confirmam a regra do clichê da mediocridade televisiva brasileira. 

Plus ça change, plus c’est la même chose! Fiquemos com os mamíferos da Parmalat, num típico requentar da era-uma-vez gloriosa publicidade brasileira. Pombos são aves. E aves definitivamente não são mamíferos. Voltemos urgentemente ao pombo-correio.

 

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