Se não há bandidos, o que dizer então dos mocinhos?

Emissoras e teles duelam por TV digitalÉ absolutamente evidente que, para que se desse início o processo de transição da atual televisão analógica para a futura televisão digital terrestre no Brasil, fez-se necessário, antes de qualquer coisa, a ascensão de uma tecnologia que permitisse a produção do conteúdo e distribuição do sinal televisivo digitalizado, fosse através da possibilidade de se transmitir informações adicionais para correção de erros, fosse por meio da capacidade de compressão de dados. Entretanto, apesar de fundamental a consideração dos aspectos tecnológicos, a questão técnica está longe de ser um fator isolado para a real compreensão dos impactos advindos da transição do analógico para o digital na televisão brasileira, entendimento este que pressupõe a análise de inúmeras variáveis profundamente inter-relacionadas, dos aspectos políticos e econômicos aos sócio-culturais.

Também seria superficial em demasia realizar uma abordagem simplista e maniqueísta de dividir os envolvidos neste processo em “bons” e “maus”, em “favorecidos” e “lesados”, “beneficiados” e “prejudicados”. Dentro do suposto grupo dos “beneficiados”, defrontam-se e aglutinam-se – já atualmente, embora também a longo prazo – corporações pertencentes aos mais distintos setores da economia, dos grupos de comunicação à indústria de hardware e software, passando pelas empresas de telecomunicações, sobrevivendo aquelas que se adaptarem às transformações e sujeitas a fusões ou mesmo à extinção outras que não quiserem ou não conseguirem mudar. A complexidade deste novo cenário não nos permite considerar a realidade sob um único prisma.

Entretanto, é objetivamente factual a percepção de que na sociedade brasileira há uma constante que atravessa toda a sua história. Do Brasil colônia, passando pelo país, nesses mais de quinhentos anos em que se passaram imensas transformações, o que efetivamente não tem mudado é o fato dessas transições sempre estarem a favor de uma pequena minoria que se encontra no topo da sociedade em detrimento da esmagadora maioria da população. Ao analisarmos o processo de transição para a TV Digital no Brasil, somos constantemente levados a crer que esta mudança, enaltecida por muitos como repleta de potenciais revolucionários, carrega na sua concepção uma enraizada desigualdade histórica tipicamente brasileira.

Dessa forma, buscando a realização de um projeto que ofereça uma visão plural sobre os envolvidos neste processo, se faz necessário inicialmente compreender as relações históricas da extremamente concentrada grande mídia brasileira em algumas poucas famílias e o recorte que ela faz da realidade ao seu grande público. Dentro desta relação, de maneira ainda mais centralizada, é preciso destacar a participação da televisão como principal meio de manipulação do imaginário coletivo brasileiro como um todo, necessariamente salientando o grande poder e força representada pela TV Globo, veículo carro-chefe das organizações Globo.

Uma vez exposto este cenário, é possível abordar o fenômeno da convergência das mídias, propiciado pela digitalização dos meios de comunicação, em que áudio, vídeo e texto são transformados em bits e facilmente mesclados e transportados através de meios em comum. Neste ambiente de irreversíveis mudanças, no que antes havia meios de comunicação com linhas divisórias claras e linguagens particulares facilmente diferenciadas, encontra-se hoje em transformação uma mixagem de recursos e influencias de códigos de meios antes distintos, agora inter-relacionados, estabelecendo os componentes necessários para a ascensão da “cultura do remix”, assim denominada por Lawrence Lessig.

Nesta chamada nova mídia, qual seria o papel do mais importante meio de comunicação da era moderna, a televisão, uma vez que a interatividade propiciada pelos avanços tecnológicos a transformará num veículo completamente diferente, de acesso aleatório, não mais dependente de horário, dia ou do tempo necessário para a transmissão? Qual seria o potencial de democratização da TV propiciado pela digitalização deste meio e quais as possíveis mudanças especificamente no Brasil para todos os seus envolvidos? Da análise da relação da grande mídia com seu público, à supremacia da televisão neste contexto, passando pela digitalização deste meio, a bibliografia que seguirá nos próximos posts busca embasar de maneira plural a análise dos impactos e da maneira sectarista como está sendo orquestrado o processo brasileiro de transição da TV analógica para a TV Digital.

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